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  • A escolha do seu caminho

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    Por Lise Steigleder Chaves – Consultora em Gestão de Pessoas

    “Alice: Que caminho devo tomar?
    Gato: Para onde você quer ir?
    Alice: Não sei…
    Gato: Se você não sabe onde quer ir, todos os caminhos levam a lugar nenhum.”

    (Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll)

    Vamos combinar algumas coisas: ninguém aqui é Alice! Será?
    Vivemos num mundo real, cheio de desafios e complexidades que escapam a maioria de nós. Somos de um modo geral, sujeitos. E o que isto significa? Que sofremos da síndrome do “deixa a vida nos levar” e isto tem um significado muito especial quando se trata de trabalho.

    Começamos a trabalhar por necessidade – queremos ter independência financeira, precisamos contribuir em casa, pagar estudos, poupar para uma viagem, casamento, comprar um carro, apartamento, roupas, celulares mais poderosos, Ipod’s e por aí afora! Ou trabalhamos porque afinal já não somos mais os filhinhos da casa e os pais já nos olham torto cada vez que a mesada acaba na primeira semana do mês!

    A questão é que estamos fadados ao trabalho. E o que em princípio parecia obrigação, em muitos casos vai-se mostrando algo desafiador e prazeroso e vamos fazendo as nossas tarefas da melhor maneira possível, esperando encontrar o caminho do reconhecimento e do crescimento. As vezes até sonhamos com um caminho mágico, cheio de sucesso, realizações e discursos!
    A esta altura vocês devem estar pensando que tudo isto é bobagem – imagine que as pessoas são assim ingênuas, acreditam que a empresa olhará para elas e verá o quanto e como são capazes e merecedoras de novos desafios e oportunidades.
    Acontece que eu escuto esta histórinha de inúmeras “Alices” entra ano e sai ano! E é mais ou menos assim, mudando o cenário, a escolaridade e o cargo:

    Eu fazia o curso Y e falaram que tinha estágio na empresa X. Aí fui lá, fiz a ficha e me entrevistaram. E disseram que eu podia começar. Ai aceitei. Fui crescendo e quando me transferiram para tal área, resolvi fazer especialização – foi bom. E agora estou aqui: olho para trás e vejo que as coisas foram acontecendo e eu não escolhi. Primeiro porque tudo era interessante; depois porque eu já tinha meus compromissos e não podia me dar ao luxo de dizer “não posso, tem a festinha do caçula na escola”. Imagine! Se eu não topasse, alguém pegava o meu lugar. De verdade eu queria voltar no tempo, fazer outras coisas.

    E a esta altura eu pergunto para o profissional à minha frente: o que tu gostarias de ter feito? E a resposta muitas vezes é “não sei”, outras é “eu queria mesmo era ser engenheiro/economista/dentista – entre outras inúmeras possibilidades”.

    Ou seja, “Alice” continua perguntando para o gato que caminho tomar. E se queria mesmo ter sido ou construido outra carreira, por que não fez? Realmente algumas (ou muitas) pessoas não tiveram alternativa. Outras tiveram preguiça e outras não sabiam o que fazer.

    No entanto, existem pessoas que constroem de fato sua trajetória profissonal, batalham muito, abrem mão do descanso, buscam recursos em todos os lugares possíveis e imagináveis para poderem conquistar aquilo que desejam. Não ferem ninguém, de nenhuma maneira, nesta caminhada. Só sabem onde estão, o que devem fazer e onde chegarão.

    Um exemplo é um cabo da Polícia Militar, que conheci. Era casado com uma costureira, tomava três ônibus para ir de casa para o trabalho, mais três para voltar. Tinha um sonho: ser médico. Trabalhava em turnos de oito horas, não tinha a mínima condição de fazer cursinho e só poderia estudar em universidade pública – e mesmo que naquela época já estivesse em vigor o sistema de cotas universitárias, não se encaixava no perfil. Ou seja: pobre, com uma família que foi crescendo (ao longo dos anos, teve três filhas), egresso da escola pública. A chance de entrar na faculdade de Medicina batia fácil no zero. Bem, quando se sabe o que se quer as coisas podem ser diferentes: oito horas de trabalho, mais cinco na biblioteca pública estudando, o tempo restante se locomovendo, ajudando a esposa com as meninas e dormindo o possível. Oito vestibulares depois, aprovado na Universidade do Rio Grande do Sul no curso de Medicina. Conquistou o apoio da corporação; ajeitaram seu horário; foi para o ambulatório; se tornou oficial médico; obstetra; diretor da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre.

    Se ele encontrou o gato na frente de várias estradas, com certeza ele perguntou: quero ser médico – qual destes caminhos me leva até lá?


10 Comentários para A escolha do seu caminho

  1. Edson Possamai disse:

    É, nossas decisões não são nada fáceis. Temos um grande desafio na hora de escolher uma formação acadêmica e a carreira que realmente pretendemos.
    Fica mais evidente, quando temos que identificar em nossos filhos, que não sabem o que querem e a oferta de cursos ultrapassa o imaginário.
    Tenho a convicção de que nossas escolhas serão mais certas a partir do momento que nos conhecermos melhor.
    Abraços,

    • Lise Chaves disse:

      Realmente nossas decisões não são fáceis e por experiencia, gostaríamos muito de traçar um caminho mais tranquilo para nossos filhos. Mas como tu mesmo bem diz, na medida em que nos conhecemos melhor, e as “crianças” precisam saber disto, poderemos todos, fazer escolhas mais conscientes. Um abraço!

  2. VITOR HUGO TERRES FERREIRA disse:

    Olá, me identifiquei muito com este texto. Sou engenheiro civil, formado em uma renomada universidade pública, tenho pós graduação na área e inglês fluente, trabalho numa multinacional do setor da construção onde fui selecionado via programa de trainee e tenho obtido sucesso na minha trajetória onde vejo muito futuro e crescimento. A questão é, cada dia que passa vejo que não me identifico com o ramo que escolhi na minha profissão e meus afazeres não são executados como algo prazeroso. Estou vivendo a fase do “não sei” e preciso tomar essa rédia novamente para não chegar em luar algum!

    • Lise Chaves disse:

      Vitor, se tu me permite, te pergunto se não estas feliz naquilo que fazes, esta na hora de procurar outra atividade. Li em algum lugar que a cada cinco anos podemos mudar completamente de carreira, de estilo de vida, de… , muitas outras coisas. Mesmo que não seja assim tão fácil, valae a pena! Mudar de empresa, de cidade, de área na mesma empresa, propor o novo, vale a pena! Tente! Abraço.

  3. Cristiano Escobar disse:

    Lise, como sempre, escrevendo bem; com profundidade, mas com leveza. Parabéns. Adorei.

    • Lise Chaves disse:

      Cristiano,
      obrigado pelo teu feedback! Fiquei muito feliz em saber que tu acompanha nosso site.
      Um grande abraço.

  4. Fábio Souza disse:

    Olá Dra. Lize, ou melhor, apenas “Lise”, excelente texto, adorei e me identifiquei muito com a história deste ex policial militar, inclusive me serviu como um belo “puxão de orelha”, afinal, mesmo com tantas adversidades, ele nunca parou de estudar. Quanto ao gato? Ah! este nunca pára de aparecer, não é mesmo?

    Forte abraço,

    Fábio Souza.

    • Lise Chaves disse:

      Fábio!
      Ah! Este gato que sempre teima em aparecer e nos faz constantemente lembrar de nossos sonhos e limites e nos “obriga” a crescer e buscar o que queremos! A consciência sobre nós mesmos é de fato um “gato miando” que não nos deixa acomodar!
      Abraço!

  5. João Antonio R. Lourenço disse:

    Olá Lise,gostei muito deste texto. Você como sempre colocando ferramentas inteligentes para podermos nos identificar com elas. Esse texto foi como uma “bofetada” em mim.Depois de tantos anos eu continuo discutindo com esse “gato” e ele continua a me desafiar.Será que chega um momento em em nossa vida que podemos dizer que o gato não mais nos incomodará?Será que a idade nos faz Alices perdidas no mercado de trabalho porque estamos ou somos supérfluos?Ou improdutivos por termos 45, 50 anos?
    Abraço Lise,

    • Lise Chaves disse:

      João Antônio!
      Acredito que o gato nunca para de nos questionar, mas também acredito que muitas vezes ensurdecemos ou não damos atenção aos “miados” deste gato! Independentemente da nossa idade isto ocorre. O que não deve ocorrer é nos deixarmos levar pela ideia de que já sabemos tudo, já fizemos de tudo e portanto, vamos colher os frutos – este é o risco de ser Alice. A cada etapa da vida, repensarmos nosso caminho, buscarmos novos conhecimentos e desafios, nos reinventarmos, por meio de ações do dia-a-dia, da atualização, da vontade de contribuir e ainda assim da aceitação do novo, não deixa que nos tornemos supérfluos. Ao contrário, nos torna “senhores” do nosso futuro. Abraço!

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